Narcotráfico

Narcosul: PCC batiza brasileiros presos no Paraguai

|EXPANSÃO| Na estratégia de expandir negócios na zona de fronteira, PCC usa brasileiros no sistema prisional paraguaio para difundir “ideias” da organização.

Na sua rotina de “dono” da fronteira do Brasil com o Paraguai, o traficante Jorge Rafaat Toumani mantinha conexões importantes nas demais regiões fronteiriças com o território brasileiro. Circulava em vários atalhos ilícitos. O PCC quis tomar o poder do brasileiro chamado de “O rei do tráfico” na fronteira do Brasil com Paraguai.

A organização mirava seu cartel particular criado no país vizinho. Rafaat foi morto dois anos atrás, dia 15 de junho de 2016, numa trama costurada pela facção.

Da Colômbia, Rafaat era abastecido de carregamentos de cocaína pelo Clã do Golfo, um dos mais influentes no chamado Narcosul – que reúne Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela e Paraguai, os principais produtores e repassadores de drogas no continente. Ainda dos colombianos, o traficante recebia armamentos e insumos para a produção da pasta de cocaína diretamente das Forças Armadas

Revolucionárias daquele País, as Farc. Era também bem relacionado com Los Cocaleros, produtores nas fazendas da Bolívia. A proximidade geográfica de Rafaat com os bolivianos facilitava processos e remessas. Morava em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, mas transitava entre seus contatos pelo continente.

No Brasil, Raffat era fornecedor de toneladas de pó, pistolas, fuzis e munição para as duas grandes facções nacionais: PCC e CV. Clientes fiéis, certos, e a rede de provedores não falhava. A condução de Rafaat abria know how, inspirava a vizinhança criminosa. As fronteiras, sem vigilância, eram de fato uma barreira imaginária. Suas ligações se estendiam, direta ou indiretamente, para outros países da América Latina, Estados Unidos, África e Europa. Rafaat montara logística de ponta. O PCC buscou se apossar dessa estrutura.

Antes um problema doméstico brasileiro, as organizações criminosas migraram seus contingentes e práticas para os países vizinhos. Um franqueamento de ações do crime, territorialização para subir degraus. Atuação de porte comparado a outros cartéis do crime. “O PCC se empresariou. É um ambiente corporativo, empresas de transporte, semelhante à máfia italiana”, ilustra o promotor Adilson Gutierrez, do Ministério Público Militar de São Paulo.

“O Brasil exporta o crime organizado. Agora, não só entra produto do crime. Também sai o crime”, reforça o promotor militar Nelson Lacava Filho, do Ministério Público Militar de Brasília. A situação tem sido pauta nas reuniões dos grupos de inteligência das polícias e dos Ministérios Públicos estaduais. A facção ainda se aparelha para conseguir mais invisibilidade nos esquemas de lavagem. Seria uma etapa que os criminosos ainda estariam sofrendo reveses.

A promotora Cristiane Mourão, do Gaeco do Mato Grosso do Sul, confirma que há muitos membros brasileiros do PCC hoje internos do sistema prisional paraguaio. “Já estão batizando paraguaios”, agrava. Os ensinamentos da facção são difundidos. Ações registradas no Paraguai – estouro de carros-fortes e assalto a empresas de valores – têm apresentado a digital do PCC.

“Ali (em Ponta Porã), você atravessa a rua, sai do Brasil, entra no Paraguai. Por questões de direito internacional, não se pode cumprir mandado de prisão no país vizinho, há uma barreira fictícia. São entraves que o mundo lícito tem e que o mundo ilícito não tem, não liga”, admite Cristiane Mourão. Nelson Lacava, do MP Militar de Brasília, que também já atuou na região fronteiriça do Mato Grosso do Sul com Bolívia e Paraguai, sintetiza: “o Estado tem fronteiras, mas o crime não as tem”.

O que facilita o tráfico de tanta coisa, de produtos piratas a armas e drogas? Há rotas bem configuradas de contrabando e tráfico. Alguns desses vizinhos possuem leis menos rigorosas e menores tributos para a importação de armamentos vindos dos Estados Unidos – principalmente. Outros são grandes produtores da folha de coca ou possuem o solo propício para o plantio da maconha. Cigarros com 16% de impostos – quando no Brasil passam dos 70%. “O cigarro tá no topo de tudo o que é contrabandeado ali”, informa a promotora Cristiane Mourão. “É até difícil falar. Pra nós, apreender toneladas de drogas ou cigarros é normal, infelizmente”. (Colaborou Demitri Túlio)
opovo.com.br
CLÁUDIO RIBEIRO

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